Carro-pai
Relato de Raquel
“eu quero é que esse canto torto”
Belchior
Criança, fui à Porto. Ainda não era a nossa Porto. Era enorme, suja, feia, confusa - e quero crer, de verdade, que tudo isto se devia a minha estatura. Sim, eu era pequena então, e o exagero mora como um dragão silencioso no coração de uma criança. As soluções que queremos tropeçar para resolver, as coisas novas que perdemos por estarmos ainda sob encantos multissensorias anteriores... O esquecimento da escuridão insondável que nos acompanhou por cerca de 4 meses quando estávamos no útero. O esquecimento.
O que me faz lembrar da primeira vez que fui eu. Sabe: quando você, retrospectivamente, se reconhece, já velha e desesperançada, no meio das trevas da infância, recôndita por traumas, refeita por sobrevivência. Foi quando a bateria do carro do meu pai descarregou por eu estar brincando de dirigir. Vocês, irmãos e irmãs dos simuladores, que terão em breve de treinar com estes últimas filhas da moderna tecnologia para obter uma carteira de motorista, vocês não sabem como era brincar com o carro que simplesmente conseguia congregar tudo: uma coisa, fria, carregada de metal e trabalho morto, era viva como as lembranças que evocava - estas, já não tenho mais comigo, embora tenha na lembrança as lembranças...
Enfim, acabou que fiz isso de deixar o rádio ligado, só abaixara o volume: outra coisa mágica que havia naquele tempo era a presença de um botão giratório que, abaixando o volume gradualmente, levava a extinção sonora daquilo que estava tocando; filhas do vale do silício ou de uma linha de montagem de escravos em algum requinte de crueldade mais perto de você, estas nunca saberão desse tipo de metáfora. Ali, me sinto eu, ainda. Com medo. Apavorada, olhando bestificada para algo que estava além da compreensão, algo que não conseguia explicar, resolver, fugir. Algo que estava gravado em minha alminha, pobre!, tão virgenzinha das violações cotidianas que a tornaram quase um escarro de si mesma, carregada de mau humor e pessimismo. Mas era naquele instante que eu me instituía, bicho pessoa devir-mulher, com o mesmo olhar aparvalhado que sempre, sempre acompanhou minhas viagens de ausência. Os Ausentes.
Haverá uma sequencia desse relato assim que ele chegar ao seu ápice. Suspenderei a ação quando culminar com minha maravilhosa chegada. Até lá, tomaremos um outro rumo, outras paisagens. Como o plátano na frente da minha casa.
Ele, o doce plátano e suas folhas ‘canadenses’ era impávido colosso. E ele estava lá, mirando ao carro morto, sem vida alguma porque sua bateria se esvaiu quando deixei de extinguir definitivamente o som que me acompanhara em toda a viagem que fiz imitando ao meu pai. É, eu imitava o meu pai porque ele e carro, ao menos para mim, era como se fosse um grande e único corpo: as memórias de nossas conversas mais importantes, creiam-me foram poucas as dignas de um parágrafo ou dois, sempre remetem a um carro. E até os grandes silêncios também.
E lá, doce, ele contemplava, talvez pesaroso, o meu problema existencial, constitutivo: o limite de minha astúcia, de meu entendimento do mundo. Claro que quem deu a versão do volume ter gasto a bateria meio que pelas beiradas, foi a pessoa chamada para resolver a parada. O vizinho da frente, ascendência judia, filhos brancos de olhos claros, bem, este sujeito evitou uma pequena tragédia familiar em que eu seria o bode a expiar pelos pecados das aventuras - e da saudade.
Porque, sinceramente, era saudade. Era um sentimento trôpego, confuso como só crianças e bêbados são capazes de alimentar e ver florescer como que espontaneamente de um peito semifebril, semidolorido, semicontroverso. Ali, naquele momento de breve refrigério por uma solução prosaica eu tinha me tornado uma narradora. Alguma coisa depois me fará poeta. Outra ainda, amante. Outra, além, politizado. Mais uma e torno-me radical. E, por fim, me tornarei um cadáver. Penso mesmo em me doar para uma faculdade de medicina para ser, sei lá, mutilado com imperícia, ser ultrajado com bisturis de jovens médicos que só farreiam e brincam de serem adultos - como provavelmente homens infantilizados pelo poder e privilégio sempre farão. E o corpo que eles tanto ambicionavam eliminar, cauterizar, silenciar, será uma parte de sua ruína, enrijecido que será pelas lutas e fainas diárias. Meus órgãos, se servirem, deveriam mesmo fazer parte de um novo corpo. Minhas lágrimas, recolhidas com esmero, deveriam carregar quem eu fui, para alertar gerações futuras... Mas divago.
Aquele esforço todo para articular, expressar, conflitar, negar, responder, resolver, tudo isto, me levou a ser uma narradora. Aquele esforço em vão, vale dizer. Porque nada disso, efetivamente, aconteceu por minha causa. Apesar de mim, blá blá blá. Mas eu fiz parte daquilo que era o mundo a primeira vez. Foi a primeira vez que minha mãe mentiu em minha frente. E gosto de acreditar que ela também me orientou: não me peçam palavras textuais, nada disso: estou justamente, desde o começo, tentando demonstrar a produção da memória e demonstrando sua incompatibilidade com seu próprio registro. Não era isso que se depreenderia desse esforço quase patético de fazer uma mentira parteira da verdade?
Dizer algo aqui…
Mas se tem uma palavra que englobaria essas eus todos, desde a narradora até o mais cínico partido de minha faceta radical, seria saudade. Então, aqui, já se sabe do que se trata. Havia dicas em todo canto, a todo momento: ninguém escutou, ninguém se importou. Pernas e braços nas calçadas, corpos ardentes no sol: quem liga para a poesia? Quem sentirá seus fulgores indecentes nas dobras da vida?
Ao som do silêncio, inventamos nossa música particular.



